Venha se inspirar e mergulhar em um mundo de sensações e pensamentos profundos.
Ecos de Guerra no Bom Fim.
Roberto Salvo
No Bom Fim as guerras chegam sempre atrasadas. Elas atravessam oceanos, passam por satélites, por telas de televisão e pelas manchetes apressadas da internet, até desembarcarem discretamente nas mesas de café da Rua Fernandes Vieira ou da Osvaldo Aranha. Quando chegam, já não são exatamente guerras, são lembranças delas. Foi assim com esta nova guerra, distante e ardente, entre o Irã, Israel e os Estados Unidos. Lá, dizem, há aviões, radares, discursos duros e mapas militares. Aqui, no Bom Fim, há silêncio, chá quente e uma certa maneira de suspirar diante das notícias. Porque no Bom Fim as guerras nunca são apenas notícias. Elas despertam ecos. Os prédios antigos do bairro, com suas sacadas de ferro e janelas que rangem nos dias de vento sul, parecem guardar histórias que vieram junto com os imigrantes. Histórias atravessando navios, carregadas em malas de couro, dobradas entre fotografias amareladas. As mães judias do bairro sabem disso. Elas sabem das guerras como quem reconhece um velho fantasma da família. Na cozinha de um apartamento antigo, uma delas escuta as notícias enquanto mexe lentamente uma sopa. A voz do repórter fala de mísseis, alianças e retaliações. Ela abaixa o volume. Não é novidade para quem já ouviu tantas vezes a palavra guerra atravessar gerações. Mas há algo de particular no modo como essas mães observam o mundo. Não é exatamente medo. É uma mistura de memória e cuidado. Elas perguntam pelos filhos, pelos netos, pelos conhecidos que vivem em Tel Aviv, em Haifa, em Nova York. Perguntam também por aqueles que nunca conheceram, mas que imaginam como se fossem parte da mesma família dispersa pelo planeta. Essa é uma curiosa geografia afetiva no Bom Fim, o mundo inteiro cabe dentro de uma mesa de jantar. À tarde, na padaria, alguém comenta a guerra. Não é um comentário inflamado, desses que os especialistas fazem na televisão. É mais um murmúrio, uma reflexão suave, quase resignada. O mundo nunca aprende, diz alguém. Outra mulher ajeita o lenço nos ombros e olha pela janela, onde o bairro segue seu ritmo de sempre, estudantes atravessando a rua, idosos caminhando devagar, crianças correndo em direção ao parque. Por um instante, o Bom Fim parece viver numa espécie de intervalo da história. Talvez porque ali as pessoas saibam que guerras passam, mas as lembranças ficam. E as mães judias, com sua sabedoria silenciosa, compreendem algo que os estrategistas talvez nunca entendam: cada guerra, por mais distante que pareça, acaba sempre chegando à mesa de alguma família. À noite, as luzes dos apartamentos se acendem uma a uma. Nas cozinhas, alguém pergunta se todos já comeram. Alguém recomenda levar um casaco. Alguém diz para telefonar quando chegar em casa. Pequenos gestos, quase invisíveis. Mas talvez seja justamente neles, nesses rituais de cuidado que atravessam gerações, que o mundo, apesar de tudo, continua resistindo às guerras.