Peixe em Camadas e a Geometria do Amor
- salvorepresentacao
- 4 de abr.
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Roberto Salvo
Há quarenta anos, e perdoe-me se a precisão cronológica esmaece um pouco, pois o tempo, esse velho tapeceiro, vai embaralhando os fios, há quarenta anos, portanto, que minha esposa e eu celebramos a Sexta-Feira Santa com o mesmo ritual. Não um ritual religioso, desses de latim e incenso, mas um ritual doméstico, de faca e tábua de carne, de oliva escorrendo manso e mãos que se encontram sobre uma travessa de refratário.
Chamamos o prato de peixe em camadas. O nome é prosaico, quase burocrático, mas a coisa ah, a coisa é outra. Começa com as batatas. Eu as corto em rodelas, e nesse gesto simples há uma meditação: cada disco fino, quase transparente, é um pequeno círculo de paciência. A cebola, depois, que me faz lacrimejar e minha esposa ri, dizendo que são lágrimas de emoção antecipada. O tomate, com suas belíssimas rodelas vermelhas, que parecem fatias de sol. E os pimentões: verde, vermelho, amarelo. As cores da bandeira de nosso Estado, ou algum país que não existe, mas deveria chamar-se: a República da Felicidade Cotidiana.
Enquanto isso, minhas mãos, mãos de vendedor, acostumadas a digitar propostas e pedidos, mas também mãos de cronista, que gostam de tatear o mundo, vão entregando os ingredientes à minha esposa.
Ela monta o prato com as mãos mágicas dela. Não sei explicar o que torna essas mãos mágicas. Talvez a leveza, talvez a precisão, talvez o fato de que, depois de quarenta anos, cada pimentão colocado no lugar certo ainda me pareça um milagre menor, desses que Deus faz sem alarde.
O azeite italiano oliva, como se diz por lá, escorre por cima de tudo, formando pequenos rios dourados. E então o forno faz o resto, transforma aquela geografia colorida em uma paisagem comestível, onde os sabores se fundem sem perder a identidade. O peixe, coitado, muitas vezes é apenas a desculpa para as camadas. Mas não digam isso a ele.
A garrafa de vinho vem da serra gaúcha. Não um vinho de cerimônia, desses que pedem taças de cristal e discursos. Um vinho honesto, que conversa com o peixe como dois velhos amigos numa calçada de Porto Alegre. Nós o bebemos devagar, enquanto a noite cai lá fora e os sinos das igrejas, porque ainda há sinos, ainda há igrejas, anunciam uma sexta-feira que se recolhe.
Quarenta anos. Penso nisso enquanto mastigo uma rodela de batata que guarda o sabor do azeite e da paciência. Quarenta anos do mesmo prato, da mesma montagem, das mesmas mãos mágicas. E me lembro de um cliente, um senhor de oitenta anos, que me disse certa vez: “Roberto, o segredo não é fazer coisas diferentes. É fazer a mesma coisa com o mesmo amor.” Eu, na época, achei piegas. Agora, diante da travessa quase vazia, acho que ele tinha razão.
Minha esposa pega minha mão sobre a mesa. Sua mão não é mais jovem, nem a minha. Mas as duas, juntas, ainda sabem cortar batatas e montar camadas. A Sexta-Feira Santa que vem, Deus querendo, o peixe estará lá. as cores, o azeite, o vinho. E o silêncio bom de quem, depois de quarenta anos, ainda tem o que compartilhar.
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